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terça-feira, 5 de março de 2013

BERNARDO FRÓES E SUA MÃE MERCÊS - MUITO ALÉM DA PARALISIA CEREBRAL

Na experiência diária da inclusão, Bernardo Fróes Bicalho e sua mãe Mercês (BH/MG) compartilham conosco experiências do convívio com a paralisia cerebral.
Solicitei estes depoimentos, pessoalmente, porque, tenho muita honra em conhecer o Bernardo, um ser humano muito especial que aos 28 anos já tem muita história para contar. A maior delas é revelada em seu olhar: ser feliz é acreditar.
Márcia Francisco
(descrição imagem: Bernardo Fróes e seus pais, José Afonso e Mercês - foto: Sylvio Coutinho)
"Sou Bernardo Fróes Bicalho, tenho 28 anos, sou jornalista e nasci com paralisia cerebral. A minha teoria (nunca comprovada e nem desmentida) é que minha mãe levou um susto com a morte de tios e primos, em um acidente, por que foi ela quem atendeu ao telefone da polícia, fazendo essa comunicação. Eles tinham vindo do interior esperá-la, pois, depois de quatro anos morando na Inglaterra, estava voltando definitivamente.
Nasci com oito meses e, segundo minha mãe, demorei um pouco para chorar. Fiquei algumas horas na incubadora, só depois pude ir embora da maternidade.  
No primeiro dia de aula em todas as escolas por onde passei, sofri preconceito de alunos e, principalmente, de professores que não sabiam lidar com as minhas dificuldades (na fala e no caminhar). No entanto, com meu bom humor e minha inteligência, não deixei isso transparecer para essas pessoas e as cativava tanto que, nos dias seguintes, elas viam que eu era como todos os outros, mas tinha algumas limitações.
 Junto comigo, sempre, nessa caminhada da vida, estava minha família e meus amigos. Um anjo que caiu na minha vida foi Marcos Noronha, que era casado com a irmã da minha mãe. Ele me apoiou em tudo e, como os outros da família, me tratava de igual para igual, e não como um adulto e uma criança.
 Casos inusitados:
 Uma vez, no Hospital Semper, um homem perguntou para minha mãe: “Ele é tetraplégico?”
 Eu fui com meu pai e minha mãe em um barzinho perto da minha casa. Como sou muito comunicativo, sentei-me à mesa de um casal, ao lado da nossa, para conversar com eles. Ao voltar para a minha mesa, a mulher foi até lá e comentou com minha mãe: “Tenho dois primos que nasceram com esse problema e um deles até morreu”. Depois perguntou: “Você tem só ele de filho?” Minha mãe falou: “Não. Tenho mais um, mais novo” e ela perguntou: “Ele é normal?” Um detalhe: Ela manca. Então eu fiquei pensando: o que é ser normal para ela?
 Estava na casa de uma amiga, com Marcio Levy, meu professor de música. Depois de cantarmos, eu tocar e conversar, um parente da dona da casa (que nunca tinha me visto) perguntou para o Marcinho: “Qual o problema dele?” e ele, que é cruzeirense, respondeu: “É atleticano”.
Almoçando com o Adriano, meu irmão, em um restaurante perto de casa, eu pedi algo para beber e a garçonete perguntou para ele: “Ele vai querer copo?” Depois que ela saiu, eu perguntei para ele: “Será que ela achou que eu sou mudo?”
 A minha maior dificuldade, hoje, é não poder andar sozinho pela cidade, por causa dos passeios irregulares, degraus existentes e atravessar a rua. Eu caminho aqui perto de casa e só vou pelo lado direito quando estou sozinho, pois o passeio do lado esquerdo é mais irregular. Adoro caminhar, mas raramente encontro pessoas que gostem de andar a pé. Dentro de casa, só tenho dificuldade de mexer no fogão e, por exemplo, tirar um prato de vidro do micro-ondas, porque tenho medo de me queimar e quebrar o prato.
 Já consigo calçar sapato sozinho (o que até pouco tempo era um empecilho), pois esse novo possui velcro.
 Evito pegar táxi de pessoas desconhecidas, pois tenho receio de que eles não me ajudem a descer quando chego ao destino."   
(Bernando Fróes - BH - MG) 
"Tenho uma vontade muito grande de encontrar grupos de pessoas especiais para que o Bê troque experiências com elas.
O Bernardo sempre facilitou muito a vida dele e a nossa, por ser bem-humorado, lutador, resiliente. Raramente se queixa das coisas, sempre procurando se adaptar às situações, porém de uma maneira criativa e positiva. Nunca, passivamente.
Demorou a conseguir caminhar, tem um desequilíbrio que o limita. O desenvolvimento intelectual foi sempre ótimo. Falou cedo, um dos primeiros a ser alfabetizado na turma, sempre gostou de leitura, participativo. Imagino como precisou ser forte para superar estas dificuldades, principalmente a fala, para conquistar estas coisas. Sabemos que temos professores com pouca formação para lidar com o diferente e que crianças costumam ser maldosas em algumas fases de seu desenvolvimento. Ele não desanimou, nunca quis deixar de ir à escola. Tinha certa tristeza quando precisava mudar de escola (e mudou muitas vezes porque escolhíamos escolas menores para que ele tivesse atenção mais adequada, mas elas não ofereciam os cursos seguintes), porque precisava lidar com a adaptação das pessoas às dificuldades dele.
Fez o curso de jornalismo e já fez dois cursos de pós-graduação. No momento, ainda está escrevendo uma dissertação para o curso de Língua Portuguesa, que fez na PUC e tem trabalhado numa empresa familiar, que acabou de ser montada, na área de agronegócios. Fará a parte de marketing, mas ajuda também na parte operacional, ligada à informática.
Já fez um estágio na Câmara Municipal de BH e até hoje tem amigos que fez lá. Não conseguiu, até o momento, um emprego na área de seu interesse.
Hoje tem um grupo de amigos criado por ele mesmo, pessoas sensíveis, inteligentes. Felizmente o telefone e o computador estiveram do nosso lado!
É muito querido por todos da família. Conquista as pessoas pelo já referido bom-humor e também pela enorme sensibilidade. Se preocupa com cada amigo, está sempre atento aos sucessos e situações difíceis de cada um. Dá muita atenção e carinho aos idosos. Também adora crianças. É extremamente discreto e sempre disposto a ajudar.
Cobra pouco e faz muito. Se estamos todos ocupados em casa (é uma família em que, pelas características das profissões, ocupa muito tempo com o trabalho), ele também procura se envolver com alguma leitura, computador, TV, telefone, mesmo que o desejo maior seja o de sair, encontrar pessoas.
Tem a alma de artista, é sonhador e está rodeado por pessoas mais operacionais. Por mais que haja uma grande vontade de ambos os lados de suprir as necessidades uns dos outros, sabemos que não acontece na proporção desejada.
Tem grande interesse pelo teatro (que gostaria de ter estudado e não conseguimos encontrar oportunidade), adora o contato com pessoas, chegando a demonstrar uma certa carência, abraçando muito."
(Mercês, mãe de Bernardo Fróes)